Sábado, Outubro 21, 2006
ROSA DOS VENTOS
©Thaty MarcondesEm meu norte a cabeça repleta de pensamentos. Desconexas idéias, inspirações perdidas em meio ao sono arredio da madrugada. O corpo cansado pesa, a inspiração adormece junto. E se alimento a alma com os espíritos do vinho, se ressente a carne dos desejos latentes, e assim me esqueço dos versos ao amanhecer. Desmaia a poesia ante o erótico e a patifaria assistida nas notícias do dia a dia.
A leste, a mão destra que não mais escreve versos inspirados de amor e de saudades; a prosa irada em favor das virtudes foi trocada pelas vicissitudes dos homens-animais pseudo civilizados sobrevivendo em selvas de metal e concreto, matando os semelhantes em nome da sobrevivência. Sobre a vivência, nada mais me seduz à poesia, ao conto ou à crônica – irônica prostituta que se veste de inverdades.
A oeste sou coração latente, loção adstringente me lavando a alma e fechando gavetas à chave. Sentimentos mascarados, nacarados, mesclados, o sangue já não flui acertadamente, a irrigação dos veios se perde nas veias emaranhadas, nas superfícies empoeiradas, no vermelho do sangue embrutecido pelas desilusões, nas paredes ruídas das incompreensíveis paradas bruscas das ações, no concreto desabado das lajes que não ousei erigir.
Ao sul, uma comichão amadurecida – fruto de desejo da mulher crescida – lateja desejos úmidos, cheiros doces; escorrem líquidos – prenúncios de atritos –; abrem-se portas, alargam-se fendas.
No centro reúno as pétalas das direções, fecho a rosa das intenções, abro as pernas dos desejos, escancaro os sentidos e os sentimentos: sou toda botão à espera do orvalho e do calor do sol. Floresço da terra em busca de segundas intenções; vôo liberta – borboleta das aspirações –, deixo uma pétala como recordação, perfumo o poeta em busca de seus versos; sou universo inverso e avesso às aparições, fantasma das rimas deformadas qual abortos uniformizados das impressões.
Nada em mim é certo, exceto as incompreensões, as confusões, o incerto. Sou latente ser perdido em líquido amniótico. A bolsa estoura e saio feto, infecto de civilização, impuro de cultura, perfeito na perdição dos pensamentos.
Quarta-feira, Outubro 18, 2006
Pode Crê, Betty!
Papel rasgado e cartinhas de amor
ela queria mesmo sentir qualquer tipo de dor
Cabeça baixa choramingando pelos cantos
não era difícil vê-la desmoronando em prantos
Resposta mal dada, esperança acabada
Qualquer coisa a surpreendia
Mas um dia tudo teve fim
Um pedaço de papel aparecia
em letras bonitas escrito assim:
"pode crê, Betty!"
Ela não tinha mais o que falar
Ela não tinha mais o que fazer
Ela queria se amarrar
E acabou por se foder
Interior urbano
Lamas no asfalto?
Lagos de impureza?
Insetos na calçada?
Dúvidas?
Pureza?...
No sangue nobre, há o arrependimento?
Ou serão beijos calorosos o que quero?
Ainda serão mares de azar?
Ou de oportunidade?
Altos preços, a confusão...
Como pode as luzes da casa continuarem acesas na fria madrugada?
Da simples janela
Perdida nas danças
E nos olhares loucos
Da (comum) sinceridade.
Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Mais uma vez ele não pergunta
Dessa vez ele não pergunta: “o que aconteceu?” Ele sempre pergunta e ninguém nunca responde. A mãe já tinha dito: “Esse garoto é muito estranho. Às vezes eu fico com medo. Ele olha com essa cara séria, parece que está me analisando. Ele me lembra um professor de Matemática que afirmava que tudo era Matemática. Vai que esse menino fica assim? Uma desgraça!” E hoje a mãe ficara séria, diferente daqueles olhares perdidos de sempre. Ela não tinha o ar tão ingênuo. Acho que dessa vez ela desistira. Eram quinze para as duas da tarde. O almoço já tinha desgastado a velha fórmula da política de boa vizinhança. A mãe já tinha quebrado o pau com a D. Candinha que insistia em reparar em quantos e como eram os homens que entravam naquela casa. “Eles não são meus namorados. Eles não são!” A vizinha já tinha dito pro menino não ficar triste com as coisas erradas que a mãe fazia. Ele fez aquela cara que a mãe tinha medo, mas a D. Candinha não entendeu e ficou achando que o menino era assim estranho por causa da mãe. Ontem à noite ela tinha feito um jantar bonito, ela se arrumou, se perfumou. O filho estava feliz, a mãe tinha um brilho no olhar. Ele mesmo ajudara a mãe a fazer o jantar, arrumar as coisas e tinha dito pra ela para não pôr aquele batom. Que ela tinha que estar natural, que não ficasse nervosa, que ele ia perceber. E disse que se o cara fosse machão, ele dizia que era sobrinho, ou até irmão. Ela falou “Não, meu bem. Ele não é que nem esses caras que vivem por aí xingando as mulheres, nem como o marido da D. Candinha que machucou a mãe daquela vez.” Ele era especial e ela já tinha contado que ele era seu filho. Que agora ele ia ter um pai de verdade. O menino sorriu, mas não porque ia ter um pai de verdade. Esse pai ele já tinha, a mãe não sabia que o dono do bar era o seu pai. Que foi ele que tinha lhe ensinado a soltar pipa, e que ajudava nos deveres de casa, que já tinha ido com ele ao Zoológico, e já tinha imitado todos os políticos da TV, e que ele lhe emprestava o jornal para ler. Ele não sorriu por ele, mas sorriu para a mãe. Agora sim, ela ia ter um marido de verdade. Mas eles esperaram a noite inteira e ele não apareceu. A mãe pra não jogar toda a comida fora convidou a filha da dona Candinha pra almoçar em casa e acabou aparecendo a mulher e o marido. A mãe disse: “Aniversário do Zezinho hoje, resolvi fazer banquete e exagerei na quantia.”D. Candinha que não perdia uma, já foi logo dizendo que viu a luz deles acesa até tarde. Perguntou se estavam esperando alguém, a mãe disse que sim, a avó. “Mas veja bem, minha filha, como é que uma velhinha vai se abalar de sua casa até aqui sozinha à noite, e com esse frio que vem fazendo, né pai? Aliás porque deixar a mãe sozinha? Será que não tem coração? Tem que trazer a mãe pra morar junto. Quem sabe assim...” “Quem sabe assim o que, D. Candinha? Vai, diz logo... A senhora acha que sou uma puta, não acha? Mas a senhora pensa isso porque seu marido veio pra cima de mim daquela vez... Pois fique a senhora sabendo que eu não tenho culpa da senhora ser uma incompetente que não sabe cuidar do seu marido. E além do mais, eu não fui a única que ele conseguiu desgraçar. Mulheres às dúzias fazem o que fazem por prazer de trair mulheres como a senhora.”“Mas é uma desbocada mesmo, Maria Antonieta vá já pra casa. Não quero que você escute essas bobagens da boca dessa... dessa... Dessa mãe desnaturada que não respeita nem a presença do filho.” Nessa hora ele corre pra abraçar a mãe, dando o sábio apoio que ela precisava. Sem nenhuma palavra ele conseguia consolar a mãe e os dois choravam juntos a magia de serem amor. Eram quinze para as duas da tarde e a essas alturas D. Candinha saía dali falando as mesmas coisas de sempre até chegar na sua casa. E mais uma vez ele não pergunta nada. “O que aconteceu?” Aconteceu o mesmo de sempre. Mas, se Deus já não se esqueceu deles, a mãe há de se aprumar... Qualquer dia desses há de se aprumar...
Domingo, Outubro 15, 2006
Homeomorfismo empírico
Homeomorfismo empírico
Encontrei a resposta para uma pergunta que há muito me atormentava escutando Real Wild Child enquanto lavava a louça.
Não me refiro a bailões ou festerês nervosos, pois aí a resposta seria evidente. O apelo exercido por algumas dúzias, centenas ou milhares de corpos rebolativos e suados sobre a libido humana é cientificamente comprovado e virtualmente irresistível.

