Sábado, Setembro 16, 2006
A fome, a seca e os modernos faraós
Como alguém inteligente pode ser feliz num mundo e numa época como o a que vivemos atualmente? Alguém, em sã consciência (aqueles que a tem, claro!) pode me explicar como harmonizar o dia a dia mesquinho e sem objetividade de crescimento enquanto SER HUMANO, vivendo e presenciando as barbáries da atualidade e da natureza do homem?
Enquanto mães se conformam com a morte dos seus filhos por inanição em seus braços, no Nordeste brasileiro da seca, da fome e da miséria humana, outros miseráveis morrem à míngua, lentamente, na vã tentativa de sobreviverem à vergonha da AIDS imposta e sem tratamento; em paralelo, no Jornal Global, com alarde de maravilhosa notícia, é dada a manchete mais vergonhosa da nossa TV: máscaras de beleza contendo em sua fórmula ouro e/ou diamantes, ao módico preço de R$ 200,00 cada aplicação por profissional abalizado!!! Dizem que rejuvenesce (glup!)!. Será esse o motivo secreto das máscaras mortuárias do Egito antigo? Voltamos aos tempos dos faraós?
Enquanto as faraonas modernas se embelezam e se rejuvenescem com máscaras preciosas, as mães miseráveis não encontram nem mesmo água, sal e açúcar para fazer um “soro caseiro” para tentar, ao menos, aplacar o sofrimento de seus pequenos e condenados rebentos, filhos da mais sórdida miséria; da mesma forma, os condenados africanos, filhos da AIDS, padecem ao sabor das intempéries da natureza, da podridão humana e da falta de estudos e de solidariedade.
Ter AIDS, na África, é vergonhoso, pois ninguém os esclarece; tratam a doença como se os acometidos pelo mal tivessem culpa em tê-la contraído.
No nordeste, perder um filho pra miséria é dor. Uma dor calada, muda, seca.
Para os afortunados, aplicar máscaras preciosas é motivo de orgulho: as dondocas sentem-se bem, dizendo que fizeram algo por si próprias, por sua beleza estética, por sua aparência inútil, por seu interior vazio, por seus bolsos cheios de riquezas, que ajudariam os seres sem futuro, quem sabe, a ter uma, ao menos uma única chance à vida.
Não é a beleza nosso bem maior, mas, sim a VIDA. A beleza vem de dentro. O interior tem que ser belo e todo o resto o transparecerá exteriormente.
Onde colocaram esses valores na moderna sociedade? Onde está a balança na qual costumávamos colocar de um lado o bem, do outro, o mal; o mocinho e o bandido; a mentira e a verdade; a justiça e a iniqüidade?
Quem foi que arrancou Deus de dentro de nós? Até quando ficaremos sentados, de braços cruzados, inertes a tantas injustiças e arbitrariedades? Como ajudar o próximo? Como acordar os modernos faraós? Como modelar o caráter dos seres para podermos chamá-los “humanos”? Como demolir essa pirâmide construída sobre o sofrimento de tantos em favor de tão poucos cegos endinheirados?
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
O telefone
O telefone tocou. Era a vizinha:
_Danilo? Tudo bem? Escuta, será que você tem um facão aí na tua casa?
_Ahn... acho que tenho sim.
_É que tem um pé de mamona que tá crescendo aqui no quintal e, com o calor, fica estalando e jogando sementes por cima da cerca. O Fábio tá querendo cortar. Você pode emprestar o facão?
_Claro.
_Então daqui a pouco o Fábio vai aí buscar.
Minha mãe disse que sabia onde estava guardado. Foi até o paiol e voltou com dois facões:
_Tinha um grande e um menor. Qual será que preferem?
_Sei lá. Me dá aqui os dois que eu levo ali na vizinha.
Ia abrir o portão quando me ocorreu a piada:
_Imagina só, mãe. Eu abro esse portão e coloco o pé pra fora de casa, passa uma viatura da polícia e eu sou preso por porte de arma branca...
Estávamos rindo e eu ia abrir o portão quando a viatura surgiu na esquina e passou bem em frente de casa. Olhamos um para o outro:
_Er... acho que vou esperar um pouquinho mais.
Fábio veio buscar o facão. Preferiu o grande. Contei a ele o episódio envolvendo a viatura. Rimos outra vez. Ele saiu e, poucos minutos depois, voltava com a ferramenta, agora embrulhada numa blusa marrom.
_Precaução. - disse
Guardei o facão outra vez, e fiquei pensando no poder da imaginação humana. Será que uns têm maior capacidade nesse sentido? Qual será a possibilidade de interferência entre o que é e o que pode ser? Só pude concluir que devo começar a imaginar mais coisas boas do que ruins. Mas, agora, pensando bem...
Quem me garante que usaram o facão apenas para decepar um pé de mamona?
Quinta-feira, Setembro 14, 2006
Alguém Que Eu Conheço
Ele não gosta de ir até o quadro e fazer continhas de matemática. Erra uma vez, erra outra e mais outra, a turma começa a gritar e vaiar. A professora perde o controle sobre os macacos e ele começa a chorar.
A cena é sempre a mesma.
Sabe quando ele fica feliz? Quando senta numa poltrona em frente a uma tv e consegue parar de pensar um pouquinho só, e mais um pouco e mais ainda. Perde total controle da própria mente e se deixa levar pelas imagens, pelas vozes, movimentos. Ele gosta.
Ele gosta mesmo é de reclamar.
As mãos sempre sujas de chocolate, a cara sempre amarrada, cabelo imundo e despenteado, cadarço desamarrado. Anda querendo parar, sentar, se acabar.
Limpa o rosto pra sujar mais ainda. A sujeira das mãos se mistura com as lágrimas e o suor do rosto fazendo com que apareça uma enorme mancha nojenta e preta na bochecha corada e ali ele a deixa por mais algumas horas... quem sabe até o fim da aula, até a mãe chegar.
É birra! É tudo birra!!!
Tem certeza de que não está certo e continua insistindo.
Amarre esse tênis.
Não faça assim.
Lave o rosto.
Estude só mais um pouco.
Desligue a tv.
Leia aqui.
De que adianta eu ficar do teu lado?
Sempre que eu posso eu faço!
Quarta-feira, Setembro 13, 2006
Infelizes lagartas
Demarcados em soturnos vôos
Com ares noturnos
Nas vencidas neblinas,
Dos sabores matutinos,
As borboletas e seus vôos pungentes
Devoram o delírio
Nas arenas esfaceladas
Chamuscadas por indiferenças
De beatos incrédulos.
Protegidos por inúmeras
Rezas ateístas estão na espera dela,
Na conquista descarada da dor.
Dor opala,
Ondeada por cavidades cenográficas,
Mirando a infestação
De seus míseros dias
À margem de um eterno casulo.
Terça-feira, Setembro 12, 2006
O universo continua mudo
Domingo, Setembro 10, 2006
Imperdoável
Meu desprezo pela vida
é meu desprezo por mim mesmo.
Qual Billy Cadela Lôca
ando armado e atiro a esmo.
Ontem mesmo acertei
– de frente –
um filho da puta.
E sorri ao ver seus dentes
atravessarem a nuca.
Meu desprezo pela norma
é meu desprezo por você.
Inquirir-me sobre a forma
é pedir pra se foder.
Ontem mesmo arregacei
– a mente –
de um fiadaputa.
Que chorou ao descobrir
que as obras lhe vêm da bunda.
Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

